sexta-feira, maio 21, 2004

Primeira viagem de moto


Olá amigos!!
O texto abaixo tb é de um integrante da list@ Motociclist@, o Mendigo, que aliás anda meio sumido da lista. O texto é muito bom, por isso resolvi postá-lo. Mas cá entre nós, quem é que ainda não arrumou uma desculpa somente para poder colocar sua máquina na estrada?! Abraços !!

===============================================

Minha prima viagem de moto

Lembro-me como se fosse hoje.

A comprei!

Passei uma semana "estudando-a" na garagem e decidi que era hora de ganhar o mundo.
Levei ao mecânico e avisei:
Capriche, pois amanhã estarei no mundo!
O profissional sorriu, parecia ser a milésima vez que via aquele brilho nos olhos de alguém.
Pedi que entregasse a moto em casa, andar só para viajar e isso aconteceria no dia seguinte.

Preparei-me!

Olhei rotas, admirei o transito, calculei gasto, preparei o coração e fui dormir.
Amanhã será o dia e deste dia não escapará minha vontade de viver, sorrir e acontecer...

Acordei!

O dia estava claro, a esperança era vida e a vida era estar de moto...
Coloquei a roupa comprada especialmente para aquele momento e quixotescamente me vi "armado".
Minha fiel, e sempre alerta, escoteira colocava-me peça por peça num ritual que depois vi repetir-se até os dias de hoje.
Estava com uma segunda pele, o couro.
Estava protegido, o ouro. Meus sonhos, meu tesouro. Meu pensar, meu passadouro.
Além de mim, o mundo era todo alegria.

A viagem!

Subi na magrela, doce Lígia, doce Bela, doce e meiga era ela.
A moto dos sonhos, uma 125 magrela. A Cinderela que viu em mim seu sapato emprestado por uma fada madrinha. Seu príncipe com o tesouro do amor.
Naquele momento éramos eu e ela.
Que o mundo se acabe, agora estou em aquarela!
Sobre a Lígia, liguei motor.
Acelerei mansinho.
A despedida foi de quem parecia não voltar.
Um guerreiro indo ao encontro de sua sina. Degladiar... Matar e/ou morrer por sua causa mais nobre: A liberdade!
Ah... Como eu estava livre de mim e do outro em mim.

Era só alegria...

Passei pelos vizinhos que me olhavam com cara de "lá vai o velho louco" "Um tolo que não teve infância e agora faz papel de palhaço".
Minha infância fora plena, bem me lembro até chorar. A saudade é sempre grande e a moto me possibilita prolongar. A infância? Não a liberdade de ser e estar...
Cruzei o primeiro farol/sinal.
O transito era intenso.
Caminhões empurravam-me para o acostamento, guardas rodoviários olhavam-me com inveja do meu feito perfeito e lá fui eu.
Paisagens deslumbrantes e algumas nunca pensei de ver. Só sabia delas por ler.
Devo ter rodado uns 2.000 kilômetros até voltar e quando voltei minha amada estava na janela, cara de apreensiva, a me aguardar.
Passei pelos vizinhos que agora me olhavam como seu eu fosse um herói e cara de "Nossa.. Que coragem", "quanto estilo..." “Um dia, ainda, tomo fôlego e faço isso ai...”

Li a felicidade em seus olhos.

Correu para abrir a garagem, auxiliou-me para descer do meu cavalo de aço, permitiu que eu limpasse a poeira que herdei no caminho e falou:
Da próxima vez rode menos... Como demorou, meu velho... Pareceu uma eternidade para mim. Quando for assim, vá andando mesmo... pois ir de moto à padaria gasta mais tempo que ir a pé...

É amigos... Quixotescamente minha primeira viagem de moto foi para cumprir a missão diária de comprar o pão da manhã e não passou de uns 900m, mas creiam: Tudo que relatei foi verdade, pois mesmo tendo rodado o Brasil de norte a sul e voltado do sul para o norte, até hoje não consegui repetir as emoções que colhi naquela viagem...


Mendigo Ferreira Leigo
===============================================